Nota de CNAPOA
Difundimos a carta dum dos foragidos da caça de bruxas feita pela 
policia de Rio de Janeiro na vespera da final da Copa do Mundo. 
Solidariedade com todxs xs que lograrem fugir e liberdade para 
todxs xs presxs.




Carta às minhas alunas e alunos – 
por quê não posso estar agora com vocês.

Após quase 2 meses, considerando 1 mês e 19 dias em que eu e centenas de
colegas estivemos em greve lutando pela escola que queremos e merecemos,
voltaríamos a nos encontrar nas 4 escolas públicas e 19 turmas onde
trabalho. Mas, infelizmente, isso não pôde acontecer e é importante para
mim, e para os outros colegas que não puderam escrever esta carta, que
vocês saibam os reais motivos.

No último sábado, dia 11 de Julho, vivemos mais um dia triste e absurdo
neste país. Não por conta da derrota do Brasil para a Holanda, pois hoje
todos os jogadores estão muito bem com seus salários milionários, mas
porque neste dia, às 6h30, quando mal tinha amanhecido, a polícia civil
invadiu a casa de 28 trabalhadores e estudantes, tratados como bandidos, 
e que trabalham e dedicam suas vidas à construção de uma sociedade justa 
e melhor para todas e todos nós. Eu também estava nesta lista e por isso 
a casa onde morava também foi invadida, com fuzis, uma foto minha e uma
ordem de prisão por 5 dias.

Gostaria de esclarecer a vocês que não somos e nunca fomos criminosos 
e que a única criminosa, responsável por prender 19 pessoas e perseguir
outras 9 como foragidas, é a própria Justiça, poder instituído de um
Estado autoritário e assassino.

Hoje eu posso explicar isso a vocês, ao contrário das 19 companheiras e
companheiros que se encontram agora presos em Bangu, pois não estava na
casa que foi invadida pela polícia e me recuso a me “entregar” à uma lei
injusta que visa condenar a todas e todos nós por crimes que nunca
cometemos. Absurdos de um país que persegue uma professora da rede 
pública estadual, oprimida por um Estado que a condena a péssimas 
condições de trabalho (que vocês conhecem), que a pune com ameaças de 
demissão e, não satisfeito, a caça pelas ruas – prendendo-a em público – 
pelo único fato de ser lutadora e ter acreditado nas greves de 2013 e 
2014 como possibilidades de se construir uma educação que realmente 
sirva ao povo, aos seus alunos e a todas e todos trabalhadores da 
educação. Ela, outro professor também da rede Estadual de Ensino e 
mais 17 pessoas estão agora presas, enquando os assassinos das muitas 
chacinas estão soltos, enquando os governantes que fecharam mais de 
300 escolas estaduais em 3 anos continuam soltos.

Por isso, chega a ser ofensiva e intolerável qualquer identificação do
sistema politico atual do Brasil com uma democracia!

Após ter sido preso e torturado por 15 policiais no dia 15 de Junho,
durante uma manifestação contra o que significava a Copa do Mundo da 
FIFA no nosso país – a Copa das remoções, dos bilhões gastos em 
estádios e da falta de água nas comunidades, dos Cieps em pedaços, dos 
mortos nas filas dos hospitais -, escrevi uma mensagem como esta 
agradecendo o apoio que recebi e dizendo que “nunca tivemos democracia 
no Brasil”. Hoje, mais uma vez, repito isso: NUNCA VIVEMOS UMA DEMOCRACIA 
NO BRASIL, pois a ditadura militar se encerrou, mas o sistema social que 
ela defendeu e que a  motivou continua o mesmo, operado agora por todos 
os partidos que chegaram  ao Estado em nome da “democracia”.

A falta de democracia e de direitos políticos que sempre foi vista nas
favelas, periferias e áreas rurais do país, onde não é permitido se
manifestar e reclamar do Estado ou da “lei” vigente, se ampliou para as
ruas, em 2013, quando estas se fortaleceram no combate por direitos e
melhorias. Foram centenas de presos, agredidos, espancados, perseguidos
pelo Estado apenas por se manifestarem.

Me tortura hoje a distância. Não ter notícias de nossas e nossos
companheiros - como estão, onde, o que passam. Não poder retornar às
minhas escolas e encontrar com vocês. Mas tenho certeza que não estou
errado e que vocês sabem disso. Vocês vivem as situações de injustiças,
moram nos bairros e comunidades onde o Estado mata, estudam nas escolas
onde falta professor, biblioteca, salas de aula, onde a opressão é a
ordem.

Espero revê-los o mais rápido possível! Me ajudem a compartilhar esta
carta, divulgar o que está acontecendo com todos nós e a impedir que 
mais esta injustiça continue.

Abraços,
Pedro.

retirado de CNARIO 
https://cnario.noblogs.org
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